Liderar não é fazer pelo outro: é ensinar o outro a fazer
Uma reflexão sobre liderança maçônica, formação de oficiais, autonomia administrativa e progresso das Lojas.
Na vida maçônica, ajudar é um dever fraterno. Contudo, quando a ajuda substitui o aprendizado, ela deixa de formar e passa a criar dependência. A verdadeira liderança não centraliza o conhecimento: compartilha, orienta e prepara novos Irmãos para servir melhor.
Ao longo dos últimos anos, exercendo atividades ligadas à Secretaria da Guarda dos Selos, pude observar, de maneira prática e constante, a realidade administrativa de diversas Lojas Maçônicas. Essa experiência tem me permitido compreender que tal Secretaria não se limita apenas ao cumprimento de rotinas formais, registros, documentos e procedimentos. Ela também funciona como uma espécie de termômetro da vida maçônica e administrativa das Lojas.
Por meio dela, é possível perceber o grau de organização, o nível de conhecimento dos oficiais, a capacidade de cumprimento das obrigações administrativas, o zelo com os prazos, a atenção aos documentos e, sobretudo, o compromisso das lideranças com o bom funcionamento da Loja. Em muitos casos, os dados, as solicitações, os atrasos, as dúvidas recorrentes e as dificuldades apresentadas revelam muito mais do que simples falhas operacionais. Revelam, na verdade, o estágio de desenvolvimento administrativo e institucional de cada Oficina.
A partir dessas constatações empíricas, tenho refletido sobre um ponto que considero de grande relevância para o progresso das Lojas e, consequentemente, para o fortalecimento da Ordem como um todo: a postura das lideranças diante das dificuldades dos Irmãos.
A boa vontade que pode gerar dependência
É natural que, em muitas situações, lideranças mais experientes, movidas por boa vontade, zelo fraterno e desejo sincero de ajudar, acabem assumindo tarefas que deveriam ser desempenhadas por outros Irmãos. Fazem o documento, preenchem o formulário, resolvem o procedimento, corrigem a falha, conduzem a demanda e entregam a solução pronta. À primeira vista, essa atitude pode parecer eficiente, agradável e até fraterna. No curto prazo, ela resolve o problema imediato. Porém, no médio e no longo prazo, pode produzir efeitos silenciosamente prejudiciais.
Quando uma liderança passa a fazer continuamente aquilo que caberia ao outro aprender e executar, ela pode, sem perceber, limitar o desenvolvimento daquele Irmão. Mais do que isso: pode enfraquecer a própria Loja, criando um ambiente de dependência, acomodação e baixa autonomia administrativa.
A boa intenção, quando não acompanhada de método e consciência formativa, pode gerar um resultado contrário ao esperado. Ao invés de formar novos oficiais preparados, cria-se uma cultura em que poucos sabem fazer e muitos apenas aguardam que alguém resolva. Ao invés de estimular o aprendizado, consolida-se a dependência. Ao invés de fortalecer a responsabilidade individual e coletiva, transfere-se, ainda que informalmente, o dever de muitos para as mãos de poucos.
“Ajudar não pode significar substituir permanentemente. Servir não pode significar impedir que o outro cresça. Liderar não pode ser confundido com assumir todas as responsabilidades daqueles que precisam aprender a exercê-las.”
Esse fenômeno é perigoso porque, muitas vezes, não nasce da negligência, mas da boa vontade. O líder deseja ajudar. O Irmão deseja ser útil. A autoridade deseja facilitar. No entanto, ajudar não pode significar substituir permanentemente. Servir não pode significar impedir que o outro cresça. Liderar não pode ser confundido com assumir todas as responsabilidades daqueles que precisam aprender a exercê-las.
Cada função em Loja também é uma escola
Na Maçonaria, cada cargo, função e encargo possui valor educativo. O Irmão que aceita uma responsabilidade em Loja não está apenas ocupando uma posição administrativa. Ele está participando de um processo de aperfeiçoamento pessoal, moral, intelectual e institucional. Ao aprender a conduzir uma secretaria, organizar documentos, cumprir prazos, registrar atos, planejar ações e responder por suas atribuições, ele também está desenvolvendo disciplina, zelo, compromisso, método e senso de dever.
Por isso, quando alguém faz tudo por ele, retira-lhe uma oportunidade de crescimento. Pode até aliviar-lhe momentaneamente o trabalho, mas também reduz sua experiência, sua capacidade e sua segurança. A Loja, por sua vez, permanece dependente de determinadas pessoas e não desenvolve uma estrutura sólida, capaz de sobreviver às mudanças naturais de gestão e liderança.
Uma Loja verdadeiramente forte não é aquela em que apenas um ou dois Irmãos resolvem tudo. Forte é a Loja em que muitos sabem servir, muitos sabem administrar, muitos conhecem seus deveres e muitos estão preparados para dar continuidade ao trabalho. O progresso institucional não se constrói com centralização permanente, mas com formação, orientação, acompanhamento e compartilhamento de conhecimento.
A liderança que ensina fortalece a Ordem
Diante disso, é necessário que as lideranças maçônicas façam uma reflexão sincera sobre sua forma de agir. Não se trata de deixar de ajudar. Pelo contrário. Trata-se de ajudar melhor. A liderança deve orientar, ensinar, acompanhar e corrigir quando necessário, mas sem retirar do outro a responsabilidade de aprender e executar.
O bom líder não é aquele que faz tudo sozinho. É aquele que forma outros capazes de fazer. Não é aquele que concentra o conhecimento, mas aquele que o distribui. Não é aquele que se torna indispensável pela dependência dos demais, mas aquele que se torna referência pela capacidade de preparar sucessores.
A didática mais adequada, especialmente no ambiente maçônico, deve ser aquela que une fraternidade e responsabilidade. O Irmão mais experiente deve acolher a dúvida, mas também incentivar o estudo. Deve auxiliar na primeira dificuldade, mas estimular que, na próxima vez, o próprio Irmão execute. Deve compartilhar modelos, explicar procedimentos, orientar caminhos e acompanhar os resultados, mas sempre com o objetivo de formar autonomia.
Para reflexão
Estamos formando Irmãos capazes ou apenas resolvendo problemas momentâneos?
Estamos fortalecendo as Lojas ou criando dependência?
Estamos ensinando o caminho ou apenas carregando aqueles que deveriam aprender a caminhar?
A verdadeira liderança maçônica precisa compreender que ensinar é uma das formas mais nobres de servir. Compartilhar conhecimento é fortalecer a Loja. Incentivar os Irmãos a desempenharem suas funções é promover o progresso da Ordem. Corrigir com fraternidade é educar. Orientar com paciência é construir futuro.
Quando uma Loja aprende a caminhar com seus próprios pés, ela amadurece. Quando seus oficiais dominam suas funções, ela se organiza. Quando seus membros compreendem seus deveres, ela se fortalece. Quando suas lideranças ensinam em vez de apenas executar, ela se projeta para além de uma gestão, criando uma cultura duradoura de responsabilidade, continuidade e progresso.
Conclusão
A Maçonaria é uma escola de aperfeiçoamento. E, como toda escola, precisa de mestres que ensinem, orientem e inspirem. Mas também precisa de aprendizes dispostos a estudar, praticar e assumir responsabilidades. Somente assim nossas Lojas poderão crescer de maneira sólida, consciente e progressiva.
Liderar, portanto, não é fazer pelo outro. Liderar é ensinar o outro a fazer, acompanhá-lo em seu desenvolvimento e prepará-lo para servir melhor à Loja, à Ordem e à sociedade.
Ir∴ Wallas Oliveira
Cadeira 29 – Academia Caruaruense Maçônica de Letras – ACML
Cadeira 19 – Academia Brasileira Maçônica de Letras, Teatro, Ciências, Artes e Música
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