Livre e de Bons Costumes: uma reflexão sobre a verdadeira liberdade do maçom
Entre as expressões mais conhecidas da tradição maçônica, poucas carregam tanta força moral, filosófica e iniciática quanto a antiga fórmula: “Livre e de bons costumes”. À primeira vista, pode parecer apenas uma exigência formal para o ingresso na Ordem. Porém, quando examinada à luz da filosofia maçônica, percebe-se que ela não é apenas uma condição de entrada, mas um programa permanente de vida.
Ser livre, para a Maçonaria, não significa apenas não estar submetido à escravidão física, política ou jurídica. Esta seria uma compreensão limitada da liberdade. O homem pode caminhar pelas ruas, exercer uma profissão, possuir bens, votar, falar e decidir sobre muitos aspectos da vida, e ainda assim permanecer escravo de si mesmo.
A expressão “livre” não deve ser compreendida apenas como independência exterior, mas como domínio interior. O homem verdadeiramente livre não é aquele que faz tudo o que quer, mas aquele que consegue querer o que é justo, digno e elevado.
Nesse sentido, a Maçonaria não recebe o homem como obra pronta. Ela o recebe como pedra bruta. E a pedra bruta simboliza exatamente essa condição inicial do ser humano: cheio de possibilidades, mas ainda marcado por asperezas, imperfeições e excessos.
Mas a expressão não se encerra na liberdade. Ela exige também os “bons costumes”. E aqui reside uma questão fundamental: bons costumes não são apenas boas maneiras sociais, educação formal ou aparência de respeitabilidade.
Bons costumes, no sentido maçônico, são hábitos morais consolidados. São práticas reiteradas de virtude. São comportamentos que revelam caráter, equilíbrio, honestidade, fidelidade à palavra, respeito à família, amor ao trabalho, zelo pela verdade, espírito fraterno e compromisso com a sociedade.
A Maçonaria, ao exigir bons costumes, não está buscando homens perfeitos, pois a perfeição absoluta não pertence à condição humana. O que ela busca são homens moralmente educáveis, sensíveis ao aperfeiçoamento, capazes de reconhecer seus erros e dispostos a trabalhar sobre si mesmos.
Há uma ligação profunda entre liberdade e bons costumes. Uma coisa depende da outra. Sem liberdade interior, os bons costumes se tornam apenas aparência. Sem bons costumes, a liberdade se transforma em licença, abuso ou desordem.
Vivemos um tempo em que muitos confundem liberdade com ausência de limites. A sociedade contemporânea, em vários aspectos, estimula o imediatismo, a exposição exagerada, a opinião impulsiva e a relativização de valores fundamentais.
Nesse ambiente, a expressão “Livre e de bons costumes” surge como uma advertência serena, mas firme: não há verdadeira liberdade onde não há responsabilidade; não há verdadeiro progresso onde não há caráter.
Ser livre e de bons costumes é, também, rejeitar a conivência com o erro. A tolerância, tão cara à Maçonaria, não pode ser confundida com omissão moral.
A expressão em estudo também nos chama ao exame de consciência. Somos, de fato, livres? Ou ainda somos conduzidos por paixões que não confessamos? Somos, de fato, de bons costumes? Ou apenas preservamos uma imagem social cuidadosamente construída?
Livre é o homem que pensa com independência, mas sem arrogância. Livre é o homem que busca a verdade, mas sem fanatismo. Livre é o homem que respeita a tradição, mas não se aprisiona à ignorância.
De bons costumes é o homem que honra sua palavra. Que respeita sua família. Que trabalha com dignidade. Que pratica a beneficência sem ostentação. Que entende que o avental maçônico simboliza trabalho, e não vaidade.
Assim, a expressão “Livre e de bons costumes” não deve ser lida como uma senha social, mas como uma sentença moral. Ela nos pergunta, silenciosamente, se somos dignos da confiança que a Ordem depositou em nós.
No fim, ser livre e de bons costumes é aceitar uma missão: a de transformar a si mesmo para melhor servir à humanidade.
Cadeira 29 – Academia Caruaruense Maçônica de Letras – ACML
Cadeira 19 – Academia Brasileira Maçônica de Letras, Teatro, Ciências, Artes e Música
Simplesmente fantástico
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