Campanha “Diga Não”: por uma comunicação maçônica ética e responsável na era digital
Uma reflexão sobre o uso consciente das tecnologias, a prudência na comunicação e a responsabilidade do maçom diante das mensagens que compartilha.
A história da humanidade também pode ser contada pela história da comunicação. Desde os primeiros sinais, registros escritos e mensageiros, passando pelo telégrafo, pelo rádio, pelo telefone e pela televisão, o ser humano sempre procurou superar as distâncias geográficas e tornar mais rápida a circulação das ideias. Hoje, na era digital, uma mensagem pode atravessar continentes em segundos, alcançando pessoas, grupos e instituições com uma velocidade jamais vista em outros períodos da história.
Não se trata, portanto, de negar os avanços tecnológicos. A tecnologia é uma conquista da inteligência humana e, quando bem utilizada, aproxima pessoas, fortalece instituições, facilita o ensino, amplia o acesso ao conhecimento e torna mais eficiente a comunicação. O problema não está na ferramenta, mas no modo como ela é utilizada.
A comunicação digital e a responsabilidade maçônica
A velocidade da comunicação moderna criou aquilo que muitos estudiosos chamam de “aldeia global”: um ambiente no qual fatos, opiniões, imagens e informações circulam quase simultaneamente entre pessoas de diferentes cidades, países e culturas. Uma mensagem enviada em um pequeno grupo pode, em poucos minutos, ser copiada, encaminhada, recortada, editada e publicada em outros ambientes, muitas vezes fora do controle daquele que a enviou inicialmente.
Essa realidade exige prudência. No passado, uma palavra mal colocada poderia ficar restrita a uma conversa particular. Hoje, uma mensagem precipitada pode ganhar grande alcance, ser retirada de contexto e produzir consequências indesejadas. Por isso, a pergunta que se impõe é: como a Maçonaria, instituição que valoriza o aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do homem, deve se comportar diante dessa nova realidade comunicacional?
A resposta passa por uma palavra simples, mas profunda: coerência. O maçom que defende a ética precisa comunicar-se eticamente. O maçom que valoriza a discrição precisa agir com discrição também no ambiente digital. O maçom que se compromete com a verdade não pode ser agente de boatos, exageros, fake news ou mensagens sem fundamento.
O problema das figurinhas, imagens e mensagens inadequadas
Um dos pontos centrais desta campanha é o alerta contra o uso de figurinhas, imagens ou publicações que reproduzam sinais, toques, palavras, posições, expressões ritualísticas ou elementos que, pela tradição maçônica, exigem cuidado, sobriedade e reserva.
É comum encontrar, em grupos de WhatsApp formados por maçons, figurinhas ou imagens com expressões como “em pé e à ordem”, representações de sinais, gestos ritualísticos ou frases que remetem ao ambiente interno da Ordem. Alguns podem argumentar que tais elementos já se encontram espalhados pela internet. Ainda assim, essa justificativa não resolve o problema.
Há uma diferença importante entre encontrar um conteúdo disperso na internet e ver um maçom contribuindo ativamente para sua vulgarização. O erro de terceiros não justifica a repetição do erro por aqueles que deveriam zelar pela instituição.
O risco da banalização
A banalização é um perigo silencioso. Ela não destrói uma tradição de uma vez; vai enfraquecendo seu sentido aos poucos. Aquilo que deveria inspirar respeito passa a ser tratado como piada. Aquilo que deveria conduzir à reflexão passa a circular como figurinha. Aquilo que deveria ser vivenciado com seriedade passa a ser consumido como entretenimento instantâneo.
A Maçonaria sempre trabalhou com símbolos. E os símbolos não são simples desenhos. Eles carregam significados, educam a consciência, provocam reflexão e orientam o aperfeiçoamento do homem. Quando um símbolo é deslocado de seu contexto e usado de modo vulgar, ele perde parte de sua força pedagógica.
Antes de compartilhar, reflita:
- Esta informação é verdadeira?
- A fonte é confiável?
- O conteúdo contribui para o esclarecimento ou apenas provoca medo, raiva ou confusão?
- A mensagem está de acordo com os princípios de respeito, tolerância e fraternidade?
- Eu teria tranquilidade em assumir publicamente a responsabilidade por aquilo que estou encaminhando?
Comunicação, desinformação e superstição
Outro ponto importante diz respeito às mensagens que propagam desinformação, crenças infundadas, correntes supersticiosas ou interpretações fantasiosas sobre a Maçonaria. Em muitos grupos, circulam textos atribuídos a autores inexistentes, frases falsamente creditadas a grandes pensadores, teorias conspiratórias, alarmismos religiosos, boatos políticos e mensagens sem qualquer base histórica, filosófica ou documental.
Esse tipo de conteúdo empobrece o debate e contraria o ideal maçônico de busca da verdade. A Maçonaria não deve ser ambiente de obscurantismo, mas de luz. Não deve estimular a ignorância, mas o estudo. Não deve alimentar fanatismos, mas a reflexão. Não deve fortalecer a confusão, mas o discernimento.
Liberdade de expressão não é licença para ferir
A liberdade de expressão é um valor essencial. Sem ela, não há pensamento livre, não há debate verdadeiro e não há desenvolvimento intelectual. Contudo, a liberdade de expressão não pode ser confundida com licença para ofender, discriminar, humilhar ou incitar violência.
Mensagens com conteúdo racista, religioso-intolerante, homofóbico, misógino, xenofóbico, agressivo ou desumanizador colidem frontalmente com os valores mais elevados da convivência civilizada. Mais ainda: contrariam o espírito maçônico, que deve estar apoiado na dignidade humana, na tolerância, no respeito e na fraternidade.
A crítica é legítima. O debate é necessário. A divergência é natural. Mas a agressão, o preconceito e a desinformação não podem ser tratados como simples opinião. Uma instituição que se propõe ao aperfeiçoamento do homem precisa ser vigilante quanto à qualidade moral daquilo que seus membros propagam.
Os três filtros da comunicação maçônica
Uma forma prática de orientar a comunicação nos grupos maçônicos é adotar três filtros antes de compartilhar qualquer conteúdo.
1. Verdade
A informação é verdadeira? Foi verificada? Tem fonte segura? Ou é apenas mais uma mensagem encaminhada sem autoria, sem data e sem comprovação?
2. Prudência
Ainda que seja verdadeira, essa mensagem deve ser compartilhada? Ela pode ser mal interpretada? Pode sair do grupo e gerar constrangimento?
3. Fraternidade
Essa mensagem edifica? Instrui? Une? Esclarece? Ou apenas provoca discórdia, ironia, humilhação, preconceito e vaidade?
Campanha “Diga Não”
Diga não às figurinhas que expõem indevidamente sinais, gestos ou expressões vinculadas à ritualística. Diga não às mensagens que transformam a tradição maçônica em brincadeira vulgar. Diga não aos boatos, às correntes supersticiosas e às falsas informações. Diga não aos conteúdos preconceituosos, violentos ou ofensivos. Diga não ao uso irresponsável da tecnologia.
Ao dizer não ao que empobrece, dizemos sim ao que edifica
A campanha também possui um lado afirmativo. Ao dizer não ao que empobrece, dizemos sim ao que edifica. Dizemos sim ao estudo. Sim à boa leitura. Sim à comunicação respeitosa. Sim à divulgação responsável da cultura maçônica. Sim à produção literária, filosófica e histórica. Sim ao uso das ferramentas digitais para aproximar, ensinar, registrar e preservar.
A Academia Caruaruense Maçônica de Letras — ACML, por sua natureza acadêmica, cultural e literária, tem papel importante nesse processo. Refletir sobre a qualidade da comunicação maçônica não é tema secundário: é parte da missão cultural e educativa da Academia.
Conclusão
O maçom somente honra plenamente sua condição quando procura alinhar pensamento, palavra e ação. Pensar bem, falar com prudência e comunicar com responsabilidade são atitudes que revelam maturidade moral.
A era digital oferece instrumentos poderosos. Com eles, podemos divulgar bons textos, preservar memórias, registrar eventos, aproximar irmãos, fortalecer instituições e levar conhecimento a muitos lugares. Mas esses mesmos instrumentos, quando usados sem critério, podem vulgarizar símbolos, espalhar desinformação, alimentar conflitos e comprometer a imagem de instituições respeitáveis.
Por isso, a campanha “Diga Não” não é uma campanha contra a tecnologia. É uma campanha a favor da consciência. Não é uma defesa do silêncio absoluto, mas da palavra responsável. Não é uma rejeição à modernidade, mas um convite para que a modernidade seja usada com sabedoria.
Que cada maçom, antes de compartilhar uma mensagem, recorde que também no ambiente digital continua sendo representante de seus princípios, de sua Loja, de sua Academia e da própria Ordem.
Parabéns a ACML, em especial o Ir. Osvaldo Brito, pelo compartilhamento do conteúdo e de suma importância nos dias atuais.
ResponderExcluirIr. Anderson Urias - MG
Excelente artigo. Parabéns à Academia e ao estimado Irmão Osvaldo por tão oportuno artigo.
ResponderExcluirUm texto que nos faz refletir e repensar o comportamento dos maçons nas suas postagens nas redes sociais. Parabéns no re acadêmico Osvaldo Brito.
ResponderExcluirA comunicação por meio digital também expressa quem é você e qual sua conduta social. O artigo do acadêmico Osvaldo Brito nos ensina isto.
ResponderExcluirA comunicação por meio digital também expressa quem é você e qual sua conduta social. O artigo do acadêmico, Osvaldo Brito nos ensina isto. Ir. Antônio Amaral.
ResponderExcluirUm olhar bem verdadeiro
ResponderExcluirDe um estimado irmão
Que nós faz pensar assim
Com tanta reflexão
Caminho de alegria
Essa é a maçonaria
Profunda iluminação